



Juvenal Savian Filho e Wilker Sousa
Fotos: Lucas Zappa
“Viveiros de Castro é o fundador de uma nova escola na antropologia. Com ele me sinto em completa harmonia intelectual.” Essas palavras são do antropólogo e pensador francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009) a respeito da obra do brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. Professor de antropologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele é reconhecido nacional e internacionalmente por seus estudos em etnologia indígena – o ensaio “Os Pronomes Cosmológicos e o Perspectivismo Ameríndio”, publicado em 1996, recebeu traduções para diversas línguas e foi incluído em duas antologias britânicas de textos-chave da disciplina, a primeira centrada na antropologia da religião, a outra dedicada à teoria antropológica geral. Em 2009, publicou na França o livro Métaphysiques Cannibales, no qual resume as implicações filosóficas e políticas de suas pesquisas entre os povos indígenas brasileiros. No Brasil, seu livro mais conhecido é A Inconstância da Alma Selvagem, publicado em 2002, que reúne estudos escritos ao longo de sua carreira até então. Uma segunda coleção, trazendo seus ensaios mais recentes, está em preparação, devendo ser publicada pela editora CosacNaify em 2012, sob o título A Onça e a Diferença.
Seu currículo inclui atividades intelectuais em âmbito mundial. Foi professor-associado nas universidades de Manchester e Chicago e ocupou a cátedra Simón Bolívar de Estudos Latino-americanos da Universidade de Cambridge. Foi diretor de pesquisas no Centro Nacional de Pesquisa Científica, em Paris, tornando-se membro permanente da Equipe de Pesquisa em Etnologia Ameríndia. Ainda na França, foi agraciado em 1998 com o Prix da La Francophonie, concedido pela Academia Francesa.
Aos 59 anos de idade, construiu uma obra potente e irretocável. Viveiros de Castro recebeu a reportagem da CULT em sua sala no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e falou sobre seu trabalho, a atual política indigenista, a crise ambiental e a inserção do Brasil na economia mundial.
Há cerca de um mês, após 15 anos de ausência, voltei ao Ipixuna para uma rápida visita. A desculpa para uma ausência tão demorada, a rigor indesculpável, foi que a vida me levou para longe da Amazônia: ensino, família, períodos de residência no exterior, o lento trabalho da escrita, o peso da idade… Isso para não mencionar algumas dificuldades que acabei tendo com a autoridade indigenista local, em Altamira (PA), por causa das empresas evangélicas que queriam se instalar entre os Araweté. Aos olhos desses missionários, eu era uma espécie de Satã que estava ali entravando a almejada conquista espiritual dos índios. Assim que parei de ir com mais frequência ao Ipixuna, esses missionários conseguiram se insinuar nas aldeias, com a complacência da administração indigenista. O estrago que causaram, até agora, ainda não parece ter sido grande demais. O mérito, naturalmente, é dos próprios Araweté.
Isso não quer dizer que o embaixador (cuja aparência física, diz maliciosamente Lévi-Strauss, indicava uma óbvia contribuição indígena) estivesse mentindo deliberadamente, procurando negar uma realidade vergonhosa mas sabida. De fato, o embaixador não sabia que havia índios no Brasil; o Brasil que ele representava diplomaticamente não continha índios. O Brasil era um país desesperado para ser moderno, então não havia, porque não podia haver, mais selvagens aqui. Outro fato curioso: em 1970 (portanto, 40 anos depois do diálogo de Lévi-Strauss com o embaixador), o censo indígena da Funai indicava, para o estado do Acre, a notável população de “zero indivíduo”. Oficialmente, não havia mais índios no Acre. Aí começam a abrir as estradas por lá, a derrubar a mata, a botar boi, e eis que começam a aparecer índios a atravancar a expansão dos pastos e a destruição da floresta. (Junto com índios, como se sabe, começaram também a aparecer os seringueiros, que se imaginava como mais outra “raça” em extinção. E bem que se tentou extingui-los naquela época – lembrem-se de Chico Mendes.) Ora, índios sempre houve lá no Acre, todo mundo no Acre sabia que eles estavam lá, mas eles não existiam em Brasília, ou melhor, para Brasília. Agora sabe-se e aceita-se que o estado do Acre abriga, atualmente, 14 povos indígenas, alguns de significativa expressão demográfica, como os Kaxinauá e os Kulina. O Acre é um estado profundamente indígena, dos pontos de vista cultural, histórico e demográfico. Na verdade, ele é hoje o principal exportador de práticas e símbolos indígenas (mais ou menos transformados) para o Brasil urbano atual.
Mas, naquele momento, os idos de 1978, quando estava se consolidando a resistência organizada à ditadura, muito da insatisfação política da classe média, dos intelectuais principalmente, se cristalizou em torno da questão indígena, como se ela fosse uma espécie de emblema do destino de todos os brasileiros. É também nesse momento que tomam ímpeto o movimento negro, o movimento feminista, a politização ativa da orientação sexual, a emergência de diversas minorias, diversas diversidades por assim dizer: étnicas, locais, sexuais, ocupacionais, culturais etc. A luta de classes assumia cada vez mais o caráter de uma integração parcial de uma série de diferenciais traçados sobre outros eixos que a economia pura e simples (as relações de produção). Começam a surgir outros atores políticos. É o momento da especulação e da experimentação generalizadas: outras práticas do laço social, outras imagens da sociedade, que não se reduzem ao par Estado-classes sociais, mas que envolvem outras formas de vida, outros territórios existenciais. Os índios foram importantes por sua força exemplar, seu poder de condensação simbólica. Eles apareceram como portadores de outro projeto de sociedade, de outra solução de vida que contraprojetava uma imagem crítica da nossa.
Os antropólogos, nesse contexto, começam a se organizar como categoria, aliando-se aos índios como atores políticos. Houve, é claro, antropólogos que tiveram um papel importantíssimo na história não só da causa indígena, mas da própria República, como Roquette Pinto ou Darcy Ribeiro, antes de (e durante) essa época. Mas naquele momento, no fim da década de 1970, os antropólogos se constituem como corporação para interpelar o governo e se opor ao projeto de emancipação. Essa mobilização sensibilizou a sociedade, entenda-se, outros intelectuais, militantes políticos de outras causas, advogados, juristas, artistas, e também as camadas médias urbanas, os estudantes… Ao mesmo tempo, e muito mais importante, os índios como que “acordaram” para seu poder de intervenção nos circuitos nacionais e internacionais de comunicação. Eles deixavam ali de ser um elemento do folclore nacional, de um passado vago e distante, e passavam a atores políticos do presente, signos críticos e urgentes de uma ultracontemporaneidade: signos do futuro, na verdade.
Enfim, é nesse momento, fim dos anos 1970, que ganha vulto todo o movimento de auto-organização de coletivos que não são mais redutíveis nem aos partidos nem aos sindicatos: a célebre “sociedade civil organizada”. É então também que começam a aparecer figuras indígenas individuais com destaque político. A primeira delas foi Mário Juruna, um deputado que foi tratado folcloricamente pela imprensa, mas que teve um papel estratégico para a emergência dos índios no cenário político-ideológico nacional e internacional (lembremos do Tribunal Russell). Juruna, que marcou presença por alguns gestos muitos simples, de grande “pega” midiática, ficou famoso com seu gravador – um edificante signo do poder da “tecnologia” nas mãos de um “selvagem”; melhor ainda, e agora de verdade, um dispositivo que preservava a potência e a imediatez da oralidade, o registro semiótico em que os indígenas se sentem completamente em casa – que armazenava as promessas e declarações de autoridades e políticos. Depois, promessa quebrada, declaração falseada pelos fatos, Juruna tocava seu gravador na frente da “otoridade” e dizia: “Mas não foi o contrário que o senhor falou?” “O senhor não havia prometido isso?” Depois de Mário Juruna, o protagonismo indígena, coletivo e individual, proliferou: associações, federações, líderes de grande expressão como Ailton Krenak e David Kopenawa.
O que distingue as cosmologias ameríndias é um desenvolvimento sui generis dessa ideia, a saber, a afirmação de que cada uma dessas espécies é dotada de um ponto de vista singular, ou melhor, é constituída como um ponto de vista singular. Assim, o modo como os seres humanos veem os animais e outras gentes do universo – deuses, espíritos, mortos, plantas, objetos e artefatos – é diferente do modo como esses seres veem os humanos e veem a si mesmos. Cada espécie de ser, a começar pela nossa própria espécie, vê-se a si mesma como humana. Assim, as onças, por exemplo, se veem como gente: cada onça individual vê a si mesma e a seus semelhantes como seres humanos, organismos anatômica e funcionalmente idênticos aos nossos. Além disso, cada tipo de ser vê certos elementos-chave de seu ambiente como se fossem objetos culturalmente elaborados: o sangue dos animais que matam é visto pelas onças como cerveja de mandioca, o barreiro em que se espojam as antas é visto como uma grande casa cerimonial, os grilos que os espectros dos mortos comem são vistos por estes como peixes assados etc. Em contrapartida, os animais não veem os humanos como humanos. As onças, assim, nos veem como animais de caça: porcos selvagens, por exemplo. É por isso que as onças nos atacam e devoram, pois todo ser humano que se preza aprecia a carne de porco selvagem. Quanto aos porcos selvagens (isto é, aqueles seres que vemos como porcos selvagens), estes também se veem como humanos, vendo, por exemplo, as frutas silvestres que comem como se fossem plantas cultivadas, enquanto veem a nós humanos como se fôssemos espíritos canibais – pois os matamos e comemos.
Essa é de fato uma noção universal no pensamento ameríndio, a de um estado originário de coacessibilidade entre os humanos e os animais. As narrativas míticas são povoadas de seres cuja forma, nome e comportamento misturam atributos humanos e não humanos, em um contexto de intercomunicabilidade idêntico ao que define o mundo intra-humano atual. O propósito da mitologia, com efeito, é narrar o fim desse estado: trata-se da célebre separação entre “cultura” e “natureza” analisada nas Mitológicas de Lévi-Strauss. Mas não se trata aqui de uma diferenciação do humano com base no animal, como é o caso em nossa mitologia evolucionista moderna. A condição original comum aos humanos e animais não é a animalidade, mas a humanidade. Os mitos contam como os animais perderam os atributos herdados ou mantidos pelos humanos; os animais são ex-humanos, e não os humanos ex-animais. Se nossa antropologia popular vê a humanidade como erguida sobre alicerces animais, normalmente ocultos pela cultura – tendo outrora sido “completamente” animais, permanecemos, “no fundo”, animais –, o pensamento indígena conclui ao contrário que, tendo outrora sido humanos, os animais e outros seres do cosmo continuam a ser humanos, mesmo que de modo não evidente.
QUANDO "TRISTES TRÓPICOS" foi lançado na França, em 1955, o júri do prêmio Goncourt publicou um comunicado, lamentando não poder atribuir a honra máxima da literatura francesa ao livro de Lévi-Strauss. O regulamento era claro: o prêmio se dirigia às "obras de imaginação". E "Tristes Trópicos" não era um livro de ficção.
Naquele ano, o Goncourt acabou nas mãos de Roger Ikor, autor de "Les Eaux Mêlées" ("Águas Misturadas"). E, como se não bastasse ter que compartilhar com o mundo a indiscrição do júri que o premiou a contragosto, Ikor ainda teria que amargar o esquecimento da história.
CIÊNCIA E LITERATURA
O aparecimento das ciências humanas no século 19 criou um problema que permaneceu mal resolvido entre os franceses ao longo do século 20 --e que os ingleses, graças a circunstâncias culturais e históricas diversas, puderam ignorar. O conhecimento do homem, até então considerado objeto literário, passou a ser reivindicado pela ciência.
É desse problema, nas suas variadas manifestações e reações, que trata o recente"L'Adieu au Voyage --L'Ethnologie Française entre Science et Littérature" ["Adeus à Viagem-- A Etnologia Francesa entre a Ciência e a Literatura", Gallimard, 528 págs., € 25, R$ 55], de Vincent Debaene, organizador das obras de Lévi-Strauss na prestigiosa coleção Bibliothèque de la Pléiade e professor de literatura na Universidade Columbia, em Nova York.
SEGUNDO LIVRO
Debaene notou que grandes obras da antropologia francesa do século 20 se fizeram acompanhar por um segundo volume, por assim dizer "literário", do mesmo autor. O livro podia sair anos depois (ou, excepcionalmente, antes --caso de "África Fantasma", de Michel Leiris) do trabalho científico ao qual fazia eco --como "Tristes Trópicos", publicado sete anos depois de "A Vida Familiar e Social dos Índios Nambikwara". O importante é que esse "segundo livro" retomava o objeto de estudo do primeiro, lançando mão da subjetividade e da retórica literária que a obra científica tinha por costume banir.
Debaene centrou sua análise em três casos representativos de três motivos diferentes para a incorporação da subjetividade "literária" ao discurso científico: "Os Queimadores de Homens" ("Les Flambeurs d'Hommes", Berg International), de Marcel Griaule; "África Fantasma" (trad. André Pinto Pacheco, Cosac Naify), de Michel Leiris, e "Tristes Trópicos" (trad. Rosa Freire d'Aguiar, Companhia das Letras), de Claude Lévi-Strauss.
Quando surge a antropologia, a literatura de viagem e a comercialização do exótico gozam de amplo sucesso junto ao público leitor. É preciso se diferenciar da vulgaridade não científica do gênero. E a tradição positivista vai exercer sua influência sobre os etnólogos franceses.
"Os Queimadores de Homens", que relata em terceira pessoa, como se narrasse as aventuras de um personagem de romance, o trabalho etnográfico e linguístico de Marcel Griaule na Etiópia, entre janeiro e junho de 1929, é uma reação e uma compensação, por vezes canhestra, segundo Debaene, à camisa de força do discurso positivista que o próprio autor se impunha em seu trabalho científico, em nome da objetividade.
CIÊNCIA VIVA
O problema é que a etnografia surgia como uma "ciência viva". E, a seguir os preceitos positivistas, o antropólogo corria o risco de transformar o objeto vivo de sua análise e descrição em peça morta de museu.
Herdeiro do Iluminismo e do positivismo francês, Griaule se confronta com o dilema de se distanciar do diletantismo dos escritores viajantes e restituir, ao mesmo tempo, a atmosfera e a vida da sociedade estudada, sob o risco de ser acusado de retórico. Seu livro é uma forma híbrida, a maneira nem sempre bem-sucedida que encontrou para lidar com as contradições de uma ciência em busca de identidade, tentando reconstituir a vida de um objeto do conhecimento que só existe vivo.
O caso de Leiris é diferente. O autor vinha do movimento surrealista. E, como os surrealistas, idealizava uma vida mais verdadeira, para além das convenções, inclusive artísticas. É isso o que ele vai buscar na antropologia. Uma arte e uma ciência mais verdadeiras, mais vivas.
E, como Lévi-Strauss, logo vai entender que a premissa da alteridade, que sustentava o exotismo da literatura de viagem, estava errada. Por uma razão muito simples: ela era um correlato da dominação sobre as sociedades não ocidentais. Além de criar uma aporia para o conhecimento: o discurso da alteridade é tautológico, pois ou o objeto do conhecimento é outro e é incognoscível, ou é cognoscível e já não pode ser outro. Não dá para conhecer um objeto em sua alteridade absoluta. O "adeus à viagem" do título do livro de Debaene significa uma recusa das ilusões do conhecimento aventureiro e glorioso dessa alteridade idealizada.
PARADOXO
Por trás dessa reflexão, havia a esperança e a intuição de que a literatura talvez pudesse lançar pontes sobre esse paradoxo, por meio de um outro modo de conhecimento.
É o que Leiris vai tentar com "África Fantasma", e Lévi-Strauss com "Tristes Trópicos". Os próprios objetos da violência do conhecimento ocidental (os indivíduos das sociedades indígenas no Brasil e na África) teriam, segundo esses livros, o poder revelador da insuficiência desse mesmo conhecimento.
Em "Tristes Trópicos", sob influência de Proust, Lévi-Strauss toma como modelo a comparação do diverso e a associação do extemporâneo, revelando a literatura como um modo de conhecimento possível, em que o sujeito (o autor) passa a ser o pivô --pela memória, pelas sensações-- das oposições de objetos heteróclitos, um "conhecimento total" em oposição ao conhecimento das partes, típico da análise científica.
HISTÓRIA
Mais que isso, o antropólogo mostra que não é possível se furtar à história e à sua violência (representada pela perda da diferenciação e a tendência à homogeneização das culturas, que faz todo o sistema entrar em entropia). E aí fica claro que tampouco há redenção proustiana. Não pode haver redenção nem mesmo pelo sensível e pela imaginação, já que nada detém o curso da história (no caso, o desaparecimento das civilizações indígenas).
Por isso, é preciso recorrer a modos de articulação entre a expe-riência e o saber. Ou seja: "O 'segundo livro' não é uma condenação da ciência ou uma compensação das suas insuficiências, mas o relato da experiência subjetiva que a tornou possível, ou o relato da construção do objeto teórico, ou uma combinação dos resíduos que todo empreendimento do conhecimento deixa para trás".
Nesse sentido, "Tristes Trópicos" seria mais propriamente um "primeiro livro", pois anuncia a obra por vir de Lévi-Strauss, cria a possibilidade de apreender o mundo pela lógica e pela correspondência das sensações, abrindo o caminho para os clássicos que vêm em seguida, como "O Pensamento Selvagem" (Papirus) e "O Cru e o Cozido" (Cosac Naify).
ETNÓGRAFO GLORIOSO
O antropólogo procura um novo humanismo, renunciando à ideia de viagem como busca da alteridade e à "mitologia do etnógrafo glorioso" representada no trabalho de campo. Denuncia a ilusão de um sujeito que se constitui pela expe-riência, a ilusão de um homem que domina a natureza. Rompe com a tradição do Iluminismo francês para ir buscar inspiração no espírito renascentista de Montaigne.
Fica claro, a partir daí, que a questão do livro de Debaene é literária, mas pelo viés do sociólogo. Professor na Universidade Columbia, ele convive de perto com o vale-tudo dos estudos culturais e com o clichê pós-moderno de que a ciência também é um discurso de ficção (ideia sedutora, que encontrou terreno fértil nas universidades americanas).
Ao mesmo tempo, conhece bem a herança que a radicalidade do pensamento de Barthes, Derrida e Blanchot deixou para a literatura francesa. E vai combater nas duas frentes: tanto a ideia de que a ciência é uma forma de ficção, como a soberba de uma literatura que se recusa a se submeter à história e às ciências humanas. "Tristes Trópicos" será o seu modelo.
SILÊNCIO
A disputa que opunha, antes da Segunda Guerra, ciência social e literatura pela posse do saber sobre o homem vai passar, nos anos 60, com Barthes, à querela sobre a própria possibilidade desse saber. Como Blanchot e Derrida, Barthes vai se fazer porta-voz de uma literatura intransitiva, na qual "só o silêncio 'se fala'".
Uma literatura que se define como um saber em si, autônomo, irredutível aos recortes da análise social e histórica. Não é por acaso que a preciosidade do estilo e a meditação moral de "Tristes Trópicos" não encantam Barthes. Ainda mais num tempo em que Beckett é o paradigma literário.
O pensamento de Barthes, de Derrida e de Blanchot terá enormes consequências tanto para a literatura francesa --que, de repente, se vê imobilizada diante de um modelo teórico genial, mas cuja consciência cria um impasse para a criação autoral-- quanto para as chamadas "humanidades" das universidades americanas.
A literatura anglo-saxã, por sua vez, mal vai tomar conhecimento do assunto, saindo ilesa para impor sua hegemonia de mercado, com a crença renovada no realismo psicológico.
VÍCIO
É contra o impasse que Debaene investe. Para ele, o clichê pós-moderno segundo o qual o discurso científico é uma ficção entre outras apenas reitera a dicotomia entre ciência e literatura, reafirmando a oposição entre objetividade e subjetividade. Para escapar ao vício do esquema, propõe uma antropologia das ciências, que leve em conta tanto o fato social e cultural como a determinação das psicologias individuais.
Ao mesmo tempo, exorta a literatura a descer do pedestal de autonomia e irredutibilidade, onde permanece pairando como um discurso ensimesmado, sem objeto. Quer voltar a submetê-la à história, inseri-la no contexto histórico.
É o que se realiza em "Tristes Trópicos", segundo Debaene. Aí, o "segundo livro" significa a articulação entre a experiência vivida e o discurso do saber, levando a cabo, com a incorporação da subjetividade "literária", a empreitada inacabada do trabalho de campo, que se sustentava sobre bases falsas, como a busca pela expe-riência de uma alteridade pura e preservada.
O que "Tristes Trópicos" permite ao seu autor é "explorar os limites de uma subjetividade historicamente e culturalmente constituída". Passa a ser, assim, "um tributo pago pelo etnógrafo pela violência de ter querido constituir outros homens em objetos".
Fonte: Folha de São Paulo