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sexta-feira, 14 de maio de 2021

Coisas Com Vida

 Em uma galáxia não muito distante, nasce um novo projeto para pensar nas coisas e em seus efeitos. Aceite o convite, um chamado para olhar o mundo material a nossa volta!

Acesse: Projeto Coisas Com Vida!



sábado, 23 de julho de 2016

Economia e Cultura

Está disponível para leitura a nova edição da Revista Horizontes Antropológicos (ano 22, n45, 2016) - Economia e Cultura.


O conjunto de artigos desta coletânea é bastante diversificado e não se concentra em apenas um eixo de reflexão acerca das complexas relações entre Cultura e Economia, aliás, o mais apropriado, me parece, seria usar economia no plural, já que não se trata de analisar uma visão hegemônica das práticas econômicas, mas o desvelar de Economias possíveis e muito distintas, como no artigo de Elizabeth Pissolato sobre criatividade na economia Mbya (Guarani). Destaque também para o artigo de Gustavo Onto, quem propõe uma interessante discussão sobre a noção de mercado e sua concepção performativa como arranjo sociotécnico.

Os artigos, grosso modo, se voltam para uma concepção que aproxima economia do mundo material e, portanto, das práticas de consumo, não promovendo a reflexão radical acerca dos modos como os imperativos econômicos conformam noções centrais tais como a de indivíduo e propriedade. 

Para acessar a Revista, clique aqui

Boa leitura!

domingo, 28 de julho de 2013

Consumo e suas consequências

Daniel Miller continua a oferecer suas contribuições aos estudos do consumo e da cultura material em seu novo livro: Consumption and its Consequences.

O volume aparece como uma espécie de continuação (ou segunda parte) de Stuff, contudo, sua intenção é oferecer uma obra acessível, sobretudo ao leitor não-antropólogo. 

O livro sugere respostas diferentes para algumas importantes questões da atualidade. O que é uma sociedade de consumo? Como e por que fazer compras? Como devemos entender a economia? Nosso desejo aparentemente insaciável por bens destruirá o planeta? Podemos conciliar restrições no consumo com objetivos como a redução da pobreza e da desigualdade social?
Miller responde a estas questões de modo viável, sugerindo um debate acessível e elaborado, principalmente, a partir de sua própria pesquisa etnográfica. Dada a evidência de que o consumo é agora central para a maneira como criamos e mantemos nossos valores e relacionamentos, as conclusões de Miller diferem drasticamente de visões convencionais e aceitas para pensar o consumo. O livro, de algum modo, reúne e retoma as pesquisas etnográficas anteriores deste autor, fornecendo uma análise acerca do consumo contemporâneo a partir de suas próprias respostas etnográficas a este fenômeno.

Dê uma olhada no conteúdo do livro AQUI e saiba mais na entrevista abaixo.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O Consumo de Tecnologias Domésticas (e domesticadas!)




Consuming Technologies: Media and Information in Domestic Spaces (1992)
Eric Hirsch (Editor), Roger Silverstone (Editor)

Entre as leituras deste mês, dei uma olhada nesta coletânea de artigos que conta com etnografias sobre o consumo de tecnologias em espaços domésticos (celulares, aparelhos de televisão, computadores etc.). A Abertura do livro "Forewords: The Mirror of Technology" foi escrita por Marilyn Strathern e traz algumas reflexões interessantes sobre o consumo de tecnologias, além de um panorama crítico sobre os artigos que compõe o volume.

The local "culture" turns these global itens into manifestation of the "local" culture!
Começa a autora. A experiência individual, neste caso, parece funcionar como um tipo similar de conversão. cada pessoa individual é, nesse sentido, a cultura de um só. Assim, a casa contextualiza o "comportamento" das tecnologias enquanto objetos que também habitam os lares, ocupam seu próprio espaço dentro de um espaço doméstico, torna-se parte da dinâmica da vida cotidiana e das relações familiares.
Essas tecnologias podem se tornar fundamentais para a dinâmica dos relacionamentos familiares, mas não são elas mesmas a razão destes relacionamentos, já que estes objetos lidam com aquilo que já está lá, com o que já deu forma à vida das pessoas. Eles são "domesticados" para finalidades tanto culturais, quanto sociais.

Um dos temas recorrentes do livro é que as tecnologias são descritas como aquelas que recebem significados sociais. Assim, longe de aumentar o isolamento das pessoas umas com as outras, as tecnologias da comunicação podem reforçar a sociabilidade. Elas não apenas se encaixam nas condutas das relações sociais, mas parecem dar às pessoas a sensação de que existe mais interação (sociabilidade) do que, de fato, há. Juntos, os artigos deste volume questionam o determinismo de que as pessoas sejam passivos recipientes de produtos. Os autores mostram como esses itens são domesticados na sociabilidade da família e moldados pelas complexidades das interações familiares.

Você pode dar uma olhada na lista dos artigos que compõe o volume aqui no GOOGLE BOOKS. 

Boa leitura!

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A vida secreta dos objetos


Ah, eu perdi! Esse simpósio internacional e transdisciplinar é mais uma das evidência de que a discussão sobre o mundos dos objetos e sobre a capacidade agenciadora das coisas ganha cada vez mais espaço. Interessantíssimos os temas e as apresentações, com a abertura realizada por Bruno Latour.
Também perdeu? 
Calma, dá pra acompanhar tudinho no site do evento, inclusive assistir as apresentações!

Aproveite: http://avidasecretadosobjetos.wordpress.com/2012/09/03/assista-as-conferencias/

Bom simpósio!

sexta-feira, 16 de março de 2012

Edição Especial: Cultura Material e Consumo de Massa

A revista International Review os Social Research acaba de lançar o dossiê especial "Material Culture and Mass Consumption in the Global South", com diversos artigos interessantes de antropólogos brasileiros e não-brasileiros.
Para conferir, acesse o link abaixo e faça o download dos artigos.
Boa Leitura!

International Review of Social Research

Print ISSN: 2069-8267
Online ISSN: 2069-8534
Frequency: Three times a year
Current volume: 2/2012
Current issue
Table of contents
February 2012; Volume 2, Issue 1.
Special Issue: Material Culture and Mass Consumption in the Global South
Guest Editors: Carmen RIAL, Sandra Rubia SILVA and Angela Maria De SOUZA

Consumption and Material Culture Studies in the Global South - Guest Editors´ Foreword (pages 1-7) 
Carmen RIAL, Sandra Rubia SILVA, Angela Maria De SOUZA
Article first published online: 25 February 2012

Abstract | Full Text (PDF) | References ddddddddddddddddddFull Access You have access to this content
Should You Accept a Friends Request from Your Mother? And Other Filipino Dilemmas (pages 8-27) 
Daniel MILLER, Mirca MADIANOU
Article first published online: 25 February 2012

Abstract | Full Text (PDF) | References ddddddddddddddddddFull Access You have access to this content
Music and Youth in Brazilian Contemporary Society (pages 28-44) 
Livia BARBOSA, Leticia VELOSO, Veranise DUBEUX
Article first published online: 25 February 2012
Abstract | Full Text (PDF) | References ddddddddddddddddddFull Access You have access to this content
‘The Idea Is For Us to Work Here In The Workshop!’: The Re-functionalization Of Artisans'  Economic and Cultural Circuits In Florianopolis, South Brazil (pages 45-62) 
Ronaldo de OLIVEIRA CORRÊA, Carmen Silvia de MORAES, Gilson Leandro QUELUZ
Article first published online: 25 February 2012
Abstract | Full Text (PDF) | References ddddddddddddddddddFull Access You have access to this content
Circulating Food and Relationships: the Movement of Food (and Other Things) Between Brazilians in Boston and Brazil (pages 63-74) 
Viviane KRAIESKI de ASSUNÇÃO
Article first published online: 25 February 2012

Abstract | Full Text (PDF) | ReferencesdddddddddddddddddddFull Access You have access to this content
Globalizing Locations: Production-Consumption Relations in the Hip-hop Movement in Brazil and Portugal (pages 75-90) 
Angela Maria de SOUZA
Article first published online: 25 February 2012

Abstract | Full Text (PDF) | ReferencesdddddddddddddddddddFull Access You have access to this content
Juvenile Sociability, Cultural Classifications and ‘Tastes’: A Study on the Universe of Games and Social Networks in Lower Class LAN Houses (pages 91-103) 
Carla BARROS
Article first published online: 25 February 2012

Abstract | Full Text (PDF) | ReferencesdddddddddddddddddddFull Access You have access to this content
Brand Clans: Consumption and Rituals Among Low-income Young People in the City of PortoAlegre (pages 104-122) 
Rosana PINHEIRO-MACHADO
Article first published online: 25 February 2012

Abstract | Full Text (PDF) | References ddddddddddddddddddFull Access You have access to this content
The Configuration of ‘Young’ Spaces in Brasil in the late 1960’s: Pop Domesticity Through the Perspective of the Magazine Casa & Jardim (pages 123-137) 
Marinês Ribeiro dos SANTOS, Joana Maria PEDRO, Carmen Sílvia RIAL
Article first published online: 25 February 2012

Abstract | Full Text (PDF) | References ddddddddddddddddddFull Access You have access to this content
A Place Called Supermarket (pages 138-150) 
Maria Elisabeth GOIDANICH, Carmen RIAL
Article first published online: 25 February 2012

Abstract | Full Text (PDF) | References ddddddddddddddddddFull Access You have access to this content
On Emotion and Memories: the Consumption of Mobile Phones as ‘Affective Technology’ (pages 151-166) 
Sandra Rubia SILVA
Article first published online: 25 February 2012

Abstract | Full Text (PDF) | References ddddddddddddddddddFull Access You have access to this content
Amazonian Exchanges: Txema’s Lessons with Outboard Engines, Mosquito Nets and Images(pages 167-184) 
Barbara Maissonave ARISI
Article first published online: 25 February 2012

Abstract | Full Text (PDF) | References ddddddddddddddddddFull Access You have access to this content

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Como o Jeans Conquistou o mundo: a cultura material em azul

Reportagem da BBC sobre a recente pesquisa do antropólogo Daniel Miller sobre o fenômeno mundial do uso do jeans. Essa pesquisa pretende ser uma etnografia global, já que é um projeto desenvolvido por diversos pesquisadores em diferentes cidades do mundo. O primeiro livro, fruto da pesquisa,  BLUE JEANS, já foi publicado com as primeiras reflexões.

CLIQUE AQUI para ver a reportagem completa,
Boa leitura!



It's difficult to find a garment as widely embraced, worn and loved the world over as jeans. The classic symbol of the American West is now a staple in wardrobes around the world. But why?
Cowboys may wear them but so do supermodels, farmers, presidents and housewives.
Ask any group of people why they wear jeans and you will get a range of answers. For some they're comfortable, durable and easy - for others they're sexy and cool. Jeans mean different things to different people. Does this explain their wide appeal?
It is a subject that is relatively unstudied, says anthropologist Danny Miller, whose book Blue Jeans will be published next month.
In every country he has visited - from the Philippines to Turkey, India and Brazil - Miller has stopped and counted the first 100 people to walk by, and in each he found that almost half the population wore jeans on any given day.
Jeans are everywhere, he says, with the exception of rural tracts of China and South Asia.
The reason for their success has as much to do with their cultural meaning as their physical construction.
They were first designed as workwear for labourers on the farms and mines of America's Western states in the late 19th Century.
When a Nevada tailor called Jacob Davis was asked to make a pair of sturdy trousers for a local woodcutter, he struck upon the idea of reinforcing them with rivets. They proved extremely durable and were soon in high demand.
Davis realised the potential of his product but couldn't afford to patent it. He wrote to his fabric supplier, the San Francisco merchant, Levi Strauss, for help.
"The secratt of them Pents is the Rivits that I put in those Pockots," he said. "I cannot make them up fast enough…My nabors are getting yealouse of these success."
Levi's, as the patented trousers became known, were made in two fabrics, cotton duck (similar to canvas) and denim.
"They found really early on that it was the denim version that would sell," says Paul Trynka, author of Denim: From Cowboys to Catwalks. Denim was more comfortable, softening with age, and its indigo dye gave it a unique character.
Indigo doesn't penetrate the cotton yarn like other dyes but sits on the outside of each thread. These molecules chip off over time, causing the fabric to fade and wear in a unique way.
"Why did it sell?" asks Trynka. "Because the denim changed as it aged and the way it wore reflected people's lives."
Because of its fading quality, denim was sold raw - unwashed and untreated - and by the beginning of the 20th Century workers began to realise they could shrink the trousers to a more comfortable fit.
Not only were they more durable but each pair of jeans began to tell the story of the worker and his work.


domingo, 18 de dezembro de 2011

Retrato do antropólogo enquanto avatar: pesquisa etnográfica, construção do avatar e inserção em campo no Second Life

Diferentes pesquisas antropológicas na (e sobre) a contemporaneidade continuam a me surpreender e interessar. Conheci o recente trabalho de Débora Krischke Leitão sobre o second life e fiquei impressionada com a discussão ampla feita pela pesquisadora, capaz de abarcar etnograficamente um universo interessantíssimo na web como o second life, e, a partir dele, realizar reflexões sobre gênero, sexualidade, representação, identidade e o papel do antropólogo em incursões de campo cada vez mais inusitadas.
Vale muitíssimo a pena conferir o vídeo onde Débora (ou seria melhor chamá-la Ruth Latour?) fala sobre sua pesquisa, além do blog e outros links interessantes!




http://primanthropology.blogspot.com/


http://www.flickr.com/photos/ruthlatour/


Bom Vídeo!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Pessoas, Agência e Identidades: "A Vida Social das Coisas" revisitado

Vocês certamente conhecem o livro The Social Life of Things: Commodities em Perspectiva Cultural (Cambridge, 1986), de Arjun Appadurai, uma coletânea de textos indispensáveis sobre mercantilização, cultura material e antropologia econômica, em particular, vale a pena ler a excelente introdução que Appadurai faz ao livro e ao tema. O livro foi publicado originalmente em língua inglesa em 1986 e somente em 2008 em língua portuguesa, pela EdUFF.

Esse livro introduz o tema deste post sobre "A Vida Social das Coisas" - Revisitado. Há mais de vinte anos, a coleção editada Arjun Appadurai, trouxe uma grande mudança em nossa perspectiva sobre as coisas materiais em circulação. Um domínio, até então reservado para a economia, foi acessado por antropólogos interessados em pensar sobre as mercadorias e empunhando novas ferramentas conceituais tais como "biografia cultural das coisas" e "política de consumo". No livro Commodification: Things, Agency and identities: The Social Life of Things revisited (2005) alguns dos colaboradores originais de 1986 (Arjun Appadurai e o arqueólogo britânico Colin Renfrew) reuniram-se com outros atuais nomes de destaque (Jean & John Comaroff, Paul & Jennifer Alexander, Roy Dilley, Mike Rowlands, and Herskovits award-winning Nancy Rose Hunt) e com estudiosos da nova geração (Brad Weiss, Rijk van Dijk, Janet Roitman, James Leach, e Irene Stengs) para revisitar a obra e o tema. Juntamente com os editores, Wim van Binsbergenand e Peter Geschiere, essa equipe explora a dinâmica da mercantilização: Coisas, agências e identidades. Desde meados dos anos 1980, o cenário mudou muito, como resultado do fim da Guerra Fria, a globalização e o triunfo do “Mercado”. A ênfase do livro recai sobre o processo através do qual as coisas tornam-se mercadorias, com contribuições empiricamente ricas e analiticamente provocativas. A Introdução extensa Wim van Binsbergen (que também reflete seu trabalho recente na filosofia e de longo alcance na comparação histórica), mostram a mercantilização como uma poderosa ferramenta para a compreensão do mundo moderno. A Mercantilização, entretanto, não esgota a dimensão ontológica das coisas, da agência e das identidades, mas muito ilumina esses três conceitos centrais e, portanto, contribui para o diálogo tão necessário entre a antropologia e economia.

Clique AQUI para ler a introdução do livro e nesse outro link dar uma olhada em seu sumário completo, após esses dois acessos será impossível não correr em busca de todos os textos.

Boas leituras!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Estudos do Consumo, por onde começar?

Algumas pessoas me perguntam ou escrevem pedindo dicas ou sugestões de obras que abordem o consumo do ponto de vista das ciências sociais ou, em particular, pela antropologia. Olhar para os fenômenos do consumo, entretanto, pode acontecer por meio de diferentes e contrastantes perspectivas, sejam elas analíticas, teóricas ou metodológicas. Acredito que o ponto de partida seja a acumulação de conhecimento sobre as principais obras e idéias que, ao longo da história da produção das ciências sociais estiveram interessadas em pensar sobre os atos de consumo e seus efeitos. Esse conhecimento prévio auxilia na escolha de uma perspectiva teórica própria e que esteja em acordo com os fenômenos empíricos observados em cada campo de investigação.
Em suma, antes de tudo, é preciso conhecer o que já foi pesquisado, escrito e dito, mesmo que depois se decida por não concordar completamente com estas abordagens, escolhendo dentre as inúmeras possibilidades aquela que parece mais rentável e interessante.

Uma das obras mais relevantes, nesse sentido, foi organizada por Daniel Miller. Dividida em quatro grandes volumes a obra reúne diferentes textos de importantes autores, reflexões sobre os estudos contemporâneos do consumo e etnografias de diferentes regiões do mundo que abordam o tema:

Consumption

Critical Concepts in the Social Sciences

Edited by Professor Daniel Miller

Introduction by Professor Daniel Miller


A obra, dividida em quatro volumes, apresenta a seguinte organização:

Consumption: Theory and issues in the study of consumption
Consumption: Disciplinary approaches to consumption
Consumption: The history and regional development of consumption
Consumption: Objects, subjects and mediations in consumption

Sem dúvidas, um bom lugar para começar...

domingo, 3 de julho de 2011

Dizer não a este estudo do Consumo - é possível?

O Café Filosófico exibido pela TV Cultura neste domingo, cujo tema foi "Dizer não ao consumo predatório - é possível?" me chamou atenção, em um primeiro momento pela temática e, depois, pela decepcionante ausência de conteúdo.

Explico-me melhor: o consumo é um tema que muito me interessa, quando aliado às atuais discussões sobre sustentabilidade e meio-ambiente (e considerando as novas terras para as quais me direciono na pesquisa de doutoramento) chama ainda mais minha atenção, assim, quando soube do título da palestra achei que valeria a pena dar uma espiada, levando em consideração, também, as excelentes curadorias e ciclos já exibidos pelo programa em outros tempos. Figuras e temas relevantes como os que foram apresentados por Eduardo Viveiros de Castro, Maria Rita Khel, Laymert Garcia dos Santos, Maria Filomena Gregori, inclusive sobre consumo, como mostrei aqui antes, atestaram a seriedade do programa, e valem a pena serem vistos (ou revistos, por isso, aproveito e deixo os links para o deleite de vocês).

Mas voltemos à questão da decepção. A fala exibida no programa de hoje foi feita por Ricardo Guimarães, uma figura do mundo dos negócios, especialista em Branding e, diga-se de passagem, muito raso nas suas afirmações. Não que eu tenha algo contra os "homens de negócios", muito pelo contrário, gosto tanto deles que passei 3 anos estudando suas práticas, contudo, minha decepção está no fato desse tipo de discurso sobre consumo ter espaço na televisão brasileira em um programa que, minimamente, se propõe a organizar discussões relevantes sobre temas interessantes e atuais.
Minha decepção - com uma dose de indignação - se deve ao fato de ainda termos que ouvir uma fala sobre consumo que gire em torno da "pirâmide de Maslow", das teorias econômicas utilitaristas, da vontade das empresas em "atender as necessidades dos consumidores" entre outras bravatas que vocês poderão ver com seus próprios olhos, tudo isso, deixa evidente o etnocentrismo ocidental desses pesquisadores e a falta de seriedade em tratar deste assunto. É mais que necessário, é urgente, a entrada de novos ares e novas abordagens para os estudos do consumo. Vindas da antropologia, da sociologia, da psicologia ou de onde quer que seja, é preciso, com a devida seriedade, apresentar perspectivas que abandonem, de uma vez por todas, a ideia de que o consumo, tal como o conhecemos, é um ato individual, de auto expressão, formador de identidades, fruto da natureza humana etc.,etc.,etc., É preciso dizer não a estes estudos sobre consumo - é possível? Não tenho dúvidas que sim.

domingo, 8 de maio de 2011

Das coisas e suas invenções: Antropologia no mundo das Marcas

Após 3 anos de pesquisa, realizada em ambientes empresariais com foco em uma marca de calçados brasileira, defendi minha dissertação de mestrado, em Fevereiro deste ano, realizada no programa de pós-graduação em Antropologia Social na Universidade de São Paulo. Quem quiser conhecer um pouco mais sobre a pesquisa, veja abaixo o resumo:

O trabalho apresenta uma reflexão antropológica acerca dos modos de agir e pensar observados em ambientes empresariais, assim como acerca dos efeitos da agência social exercida por marcas no universo do consumo de bens. Ao propor tal reflexão, o trabalho tem como ponto de partida diferentes empresas, entre elas corporações nacionais e multinacionais, agências de propaganda e institutos de pesquisa mercadológica, enfatizando a produção e o fluxo de conhecimentos, imagens, categorias e conceitos, nestes espaços. Após refletir sobre as práticas que ocorrem no interior de ambientes empresariais e, em especial, sobre a capacidade de produzirem entidades autônomas, o trabalho concentra-se na análise da distribuição e circulação de uma marca específica, a saber, a marca brasileira de sandálias Havaianas. A análise dessa marca é realizada a partir dos inúmeros fragmentos de sua exposição, entre eles relatos e opiniões de profissionais de marketing, publicitários e homens de negócios, descrições de estratégias corporativas e, sobretudo, imagens publicitárias. Todos esses elementos, quando articulados, evidenciam os efeitos e as conseqüências da existência social desta marca. Assim, o trabalho analisa a capacidade das marcas e dos ambientes empresariais de inventar categorias, noções e cultura, colocando, frente a frente, o pensamento empresarial e o antropológico.

Para fazer o download do trabalho completo CLIQUE AQUI e você será direcionado ao banco de teses e dissertações da USP.

Comentários por e-mail ou aqui no BLOG são bemvindos!

Boa Leitura!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O Consumo das Classes Populares

Imperdível! Espero vocês lá!

Para conhecer mais sobre o trabalho da antropóloga e professora Rosana Pinheiro-Machado, acesse: http://www.rosanapinheiromachado.com.br/

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

I Encontro Consumo, Cultura e Sociedade: CONSUMO E CRISES EM PORTUGAL: ABORDAGENS E PERSPECTIVAS

8 e 9 de Abril - Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Organização: Isabel Cruz (ISFLUP) e Mónica Truninger (ICS-UL)

Vários cientistas sociais e investigadores têm trabalhado sobre as sociedades de consumo, centrando-se analiticamente nalgumas das suas principais características: o aumento exponencial de bens e serviços; os novos padrões de consumo; uma democratização de bens e produtos; a quebra de costumes e instituições; a diversificação de valores e comportamentos; a extensão dos direitos sociais; novas formas de lazer; o incremento de processos de individualização e estetização bem como dos valores hedonistas junto do consumidor (Warde, 1997; Sassatelli 2007, Featherstone, 1991). Nestas sociedades, o consumo é uma das principais formas de reprodução social e de diferenciação. Assim, valores, crenças e práticas são perpetuados através do consumo, alimentando a memória colectiva da sociedade e reforçando, paradoxalmente, as clivagens e convergências em diversas esferas sociais (política, religiosa, social, cultural).
Ao longo das últimas décadas alguns dos traços característicos de uma sociedade de consumo tornaram-se visíveis em Portugal. Entre as mudanças que contribuíram para o desenvolvimento da sociedade de consumo salientamos: a queda do regime ditatorial, em 1974 e a consolidação de um Estado democrático; o livre acesso a bens e serviços, especialmente após a adesão à União Europeia, em 1986, e consequente acesso a um quadro político-económico de liberalização dos mercados internacionais; a flexibilidade do acesso a bens de consumo pelo sistema bancário por meio de facilidades de crédito; o aumento da feminização no trabalho e na educação; o aumento da urbanização fruto do incremento de diferentes mobilidades (dentro e fora do país); o aumento dos níveis de escolarização da população; a aceleração e extensão das tecnologias de informação acompanhado por um aumento generalizado do rendimento disponível (ver Santos, 1993; Barreto, 1996 e 2000; Viegas e Firmino, 1998; Pureza e Ferreira, 2002, Faria et al, 2004). Estes factores contribuíram para a consolidação de uma sociedade de consumo em Portugal, e com ela proliferaram, também, os aspectos moralmente qualificados como mais negativos do consumismo: o seu materialismo crescente, o individualismo, a insustentabilidade, o endividamento do consumidor e as desigualdades sociais na distribuição e no acesso a bens materiais e não materiais (simbólicos e culturais).
Em oposição, vozes dissidentes ganham visibilidade e propõem novas formas de vida e de consumo nas sociedades contemporâneas. Em Portugal, são cada vez mais visíveis os movimentos críticos ao consumo. Estes enfatizam um conjunto de preocupações, incluindo as questões do consumo sustentável (por vezes qualificado como consciente ou responsável), das desigualdades sociais, a preservação da tradição e da autenticidade, da vida calma, sossegada e tranquila (expressos pelos movimentos da voluntary simplicity e do slow movement), entre outros aspectos. Estes problemas têm sido especialmente evidenciados no contexto actual, onde a presença e o agravamento das diversas crises (ambientais, financeiras, económicas e sociais), têm vindo a sacudir a estrutura do tecido social. Neste clima nebuloso, novas ideias e soluções sobre a posição do consumo e dos consumidores dentro de uma sociedade em transição são objecto de discussão e debate [ver, por exemplo, o Global Green New Deal da UNEP; Prosperity Withouth Growth de Tim Jackson ou ainda o movimento da transição (transition towns) inspirado pelo permaculturalista Rob Hopkins].
Dada a escassez de estudos em Portugal e de uma reflexão que considere seriamente estas questões (nomeadamente no seio da sociedade portuguesa), convidamos ao envio de propostas de comunicações que incidam sobre um ou mais dos seguintes temas:

1) Abordagens teóricas do consumo: os contributos da teoria social contemporânea para compreender consumo e crises
2) Consumo em tempos de crise: impactos e estratégias criativas nos séculos XX e XXI
3) Consumo sustentável: O papel do Estado e dos novos movimentos sociais no actual contexto de crise
4) Novas formas de reconfigurar as interacções entre produção e consumo nas sociedades do presente e do futuro

Normas para apresentação de resumos:
Resumos (máximo de 300 palavras) deverão ser enviados até 31 de Janeiro de 2011 (segunda-feira) para o seguinte email:encontroconsumo@gmail.com. No resumo indique, por favor, o nome do autor(es) e filiação institucional(s), o endereço de e-mail e telefone do autor principal.

Inscrições: até 28 de Março
A participação no encontro é gratuita, estando, contudo, sujeita a inscrição para o email encontroconsumo@gmail.com. Os interessados deverão indicar: nome, instituição e endereço electrónico.

Conheça também: Grupo de "Estudos do Consumo" - www.estudosdoconsumo.com.br

sábado, 15 de maio de 2010

Sobre pessoas e coisas: Entrevista com Daniel Miller



Na última edição da Revista de Antropologia (volume 52 n1) foi publicada uma entrevista com Daniel Miller, realizada por mim e por Catarina Vianna em Setembro de 2009 na UCL (Univerity College London). A revista pode ser adquirida através do departamento de antropologia da Universidade de São Paulo.

Realizar essa entrevista foi uma emoção dupla, em primeiro lugar pude conhecer pessoalmente um antropólogo cujo trabalho admiro e prezo, além de utilizar seus livros e textos em diversas das reflexões que tenho feito acerca do consumo de bens e da cultura material. Por outro lado, foi uma satisfação muito grande realizá-la em conjunto com a Catarina, uma pessoa e pesquisadora séria, dedicada e que também tem a minha profunda admiração.
Assim, recomendo à todos essa interessante entrevista, cujo objetivo foi apresentar um pouco mais detalhadamente as pesquisas que vem realizando Miller, mas, também, cuja pretensão foi não esconder seu lado pessoal e descontraído.

Atualização: A entrevista pode ser lida na íntegra AQUI NO JSTOR

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Consumo: Por que a gente é assim? Com vocês Lívia Barbosa


Estive ontem (08/04/10) no espaço cultural CPFL para conferir a fala de Lívia Barbosa. A antropóloga começou refletindo sobre as possibilidades de resposta à pergunta que intitulou sua fala: Por que a gente é assim? Se por um lado ela poderia desculpar-se por sermos assim (desse nosso jeitinho), por outro, ela poderia lançar uma nova questão: assim como?
Foi o que fez Lívia, lançando uma reflexão acerca do por que consumimos da forma como o fazemos, deixando de lado a explicação de que tal comportamento é fruto de um processo histórico, também o é, bem sabemos, mas a autora optou por outras vias de análise.
A questão central colocada por sua fala tinha como eixo as relações entre cultura, consumo e sustentabilidade (tema também do dossiê organizado pela CPFL Cultural).
As contribuições de Lívia para uma "antropologia do consumo" no Brasil são notáveis, contudo, a proposta de "consumo sustentável" apresentada pela autora deixa no ar questões mais complexas e intrincadas, as quais surgiram com força entre o grupo de antropólogos que lá estava. É, de fato, possível pensar em uma alternativa rumo ao consumo sustentável que leve apenas em consideração uma suposta "mudança cultural" por parte dos brasileiros? Em que medida essa solução é "politicamente correta" frente outras alternativas que precisariam confrontar montantes empresariais e repensar nossos modos de produção?
E além, a separação entre sustentabilidade ambiental (natureza) e consumo (sociedade) pode ser pensada como produtora de uma barreira que aumenta o - já grande - fosso entre natureza e cultura?

Assista ao vídeo:

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Antropologia do capitalismo

Entrevista Agência Fapesp

Agência FAPESP - Independentemente de qualquer tipo de juízo de valor, é inegável, no caso da sociedade brasileira, que a lógica capitalista está instalada no cotidiano das relações urbanas. Para o Grupo de Culturas Empresariais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), liderado pelo antropólogo Guilhermo Ruben, trata-se de um fenômeno que merece ser olhado com maior intensidade e com todos os conceitos e teorias antropológicas, inclusive algumas das consideradas clássicas.

"É importante que esses fenômenos sejam estudados. É uma forma de se fazer uma espécie da antropologia do capitalismo brasileiro", disse Ruben à Agência FAPESP. O grupo do qual está à frente, hoje com 15 pessoas, está voltado para o assunto desde a década de 1980, tendo produzido, desde então, dezenas de publicações e teses científicas.

Segundo o pesquisador, argentino naturalizado brasileiro, as pesquisas antropológicas, na primeira fase de trabalhos do grupo, estiveram mais focadas nas culturas empresariais propriamente ditas. Foram feitos estudos sobre as relações antropológicas existentes em companhias como Odebrecht, Banco do Brasil, Banespa Santander e algumas outras que nem podem ter os nomes citados, uma vez que os pesquisadores identificaram situações delicadas como assédio sexual.

"Nosso grupo foi pioneiro nesses estudos do ponto de vista antropológico. Quando começamos, outros estudavam essas relações, mas do ponto de vista da administração. Mas não queremos ser os únicos a pesquisar esses temas. É muito importante que outros grupos também façam isso", disse Ruben.

Segundo Pedro Jaime, pesquisador do Grupo de Culturas Empresariais da Unicamp e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Escola Superior de Propaganda e Marketing, depois de toda a experiência adquirida nos últimos 20 anos, é possível entender bem como as relações antropológicas estão estabelecidas nas empresas brasileiras.

"Não podemos classificar uma cultura empresarial brasileira única. Mas muitas matrizes culturais do brasileiro estão bastante presentes nas empresas. Existem fluxos importantes dessas dimensões culturais, que podem até determinar o fracasso e o sucesso dos negócios de determinado grupo", disse Jaime.

Um dos problemas culturais que podem ocorrer, segundo o pesquisador, é o caso da fusão de uma corporação internacional com outra genuinamente verde e amarela. "Muitas vezes, a questão da cultura – entendida pelo senso comum e não do ponto de vista científico – vira um instrumento de poder, o que é maléfico. Demissões são feitas com a justificativa de que o grupo anterior não se adaptou à nova ‘filosofia’ trazida de fora", disse.

Ao estudar mais a fundo as relações sociais das corporações, os antropólogos passam até a ter condições de interferir de forma mais criteriosa sobre determinada realidade empresarial, segundo Ruben. "Muitas vezes, tem-se a idéia de que é como apertar um parafuso. Basta pegar uma chave de fenda e o problema estará resolvido. Mas não é esse o caso. A interferência tem que ser feita de outra forma, sempre com muito diálogo", explica o professor da Unicamp.


Luxo dos excluídos

Ruben e seu grupo estão convencidos de que os antropólogos precisam, cada vez mais, olhar para os núcleos centrais da sociedade, principalmente as urbanas. Se as grandes corporações fazem parte dessa visão moderna, o mesmo ocorre, na ótica do grupo, com o comportamento das pessoas em relação ao luxo.

"O conceito de luxo hoje está muito confuso. Esse universo não está mais presente apenas no ambiente ‘Daslu’. Isso é apenas um tipo. O consumo do luxo existe hoje até mesmo na favela", explica Valéria Brandini, pesquisadora do Grupo de Culturas Empresariais. Envolvida com vários projetos antropológicos do mundo da moda, ela hoje faz pós-doutorado na Unicamp relacionado ao tema do luxo.

A proposta, segundo Valéria, é fazer uma imersão em algumas grifes consumidas na cidade de São Paulo e também nos grupos de compradores, para depois tentar entender como o conceito do luxo está relacionado com as diversas vertentes sociais. "Essas relações, no caso das sociedades urbanas, são elementos centrais. A antropologia oferece muitas formas de estudo desses objetos", disse a pesquisadora.

"Há algum tempo, fui contratada por uma grife de roupas de surfe dos Estados Unidos, ligada ao universo hard core. Como eles queriam lançar uma coleção inspirada nos vodus [tradição religiosa africana associada de forma errônea a bonecas de vodu ou a práticas de magia negra], tive que fazer uma grande pesquisa sobre o assunto. A justificativa deles é que o público que compra a marca é muito exigente, então as roupas precisavam transmitir uma idéia legítima daquele universo", conta Valéria.

Ao trazer assuntos da periferia para o centro da antropologia, o grupo de pesquisa da Unicamp pretende entender como se processa uma grande gama de práticas sociais. "Ao lado do luxo, vários outros exemplos podem ser citados sobre essa presença da lógica capitalista e empresarial", explica Ruben.

"Estudamos também, por exemplo, cooperativas do Nordeste e bancos populares. Até mesmo comunidades indígenas e quilombolas querem se inserir no mundo capitalista. Para isso, elas têm que estabelecer as mesmas relações existentes nas empresas", afirma Ruben.

terça-feira, 5 de maio de 2009

O Mundo dos Bens 20 anos depois



Retirado de Horizontes Antropológicos, edição especial Antropologia e Consumo. O Mundo dos bens revisitado por Mary Douglas...vinte anos depois.

Foi uma verdadeira surpresa quando, recentemente, meus editores de Londres decidiram republicar O Mundo dos Bens (Douglas; Isherwood, 1979). Até onde eu sabia, o livro estava completamente morto, submerso sem deixar vestígios.

Embora eu tenha estudado para o livro e o escrito (com a ajuda de Baron Isherwood) com um espírito de animação, eu estava enormemente nervosa quando ele foi lançado e, logo em seguida, cheia de desgosto – como eu podia ter perpetrado algo tão obsoleto? Eu estava em Nova Iorque naquela época, e Richard Sennett, o diretor do Instituto de Humanidades, fez o que podia para que eu tivesse um pouco de discussão. Ele organizou dois seminários para mim, um com o instituto, e o outro com economistas da New York University que estavam inteiramente confusos e só queriam saber como o livro os ajudaria a medir o comportamento econômico. Ele também conseguiu com que eu falasse em particular sobre o livro com um membro do instituto, o falecido Vassily Leontiev, ganhador do Prêmio Nobel. Esse foi todo o debate que tive, e os resenhadores, que eu lembro, ficaram (como eu já previa) confusos, entediados ou hostis.

Antropologia econômica

O tema central do livro é que pobreza não pode ser definida pela ausência de riqueza. O livro tentava fazer uma aliança entre a antropologia e a ciência econômica, sugerindo uma definição de rede social de pobreza. O ponto de vista do antropólogo é de que as coisas cuja posse significa riqueza não são necessárias por elas mesmas, mas pelas relações sociais que elas sustentam. A pobreza é culturalmente definida, não por um inventário de objetos, mas por um padrão de exclusões, geralmente bastante sistemáticas.

No final nos anos 1970, quando o livro foi planejado, eu já estava fazendo antropologia há 30 anos e havia contribuído com a antropologia econômica através de meu próprio trabalho de campo no Congo Belga. No final dos anos 1940, quando eu era estudante, "antropologia econômica" era um interesse focal. Ele forneceu um modelo unitário da sociedade reproduzindo a si mesma num grande ciclo de doações recíprocas. De certa forma, o ensaio de Mauss parecia ir lado a lado com A Riqueza das Nações, de Adam Smith, e de O Capital, de Karl Marx, já que também apresenta uma visão total da economia e da sociedade interagindo. Mas o Ensaio Sobre a Dádiva (publicado em 1923) se destaca: por um lado, ele é sobre o que eram então chamadas "economias primitivas", ou seja, economias sem dinheiro, e por outro, ele contrasta explicitamente as economias sem dinheiro, onde a dádiva é o principal método de distribuição, com economias monetarizadas, que são o território da ciência econômica. Mauss aceita o hiato entre a antropologia e a economia, não tenta construir uma ponte entre ambas, e, ao contrário, tende a idealizar o caso primitivo. Conseqüentemente seu grande livro não parecia ter qualquer relevância para a economia moderna.

Nas décadas que seguiram, muito mudou na ciência econômica e há mais lugar para contabilizar o ensaio de Mauss entre as outras teorias econômicas que relacionam as energias que produzem os bens com as energias que demandam os bens. Não é um exagero vê-lo como uma contribuição às velhas discussões sobre a lei de Say. Say encarava a vida econômica como um processo circular e respondia aos temores de que a produção excessiva nunca seria absorvida por compradores, argumentando que o processo de produção em si gerava uma entrada de dinheiro extra que seria gasta no produto, de forma que o suprimento produz sua própria demanda. Mauss, por sua vez, está demonstrando o processo menos contra-intuitivo pelo qual a demanda produz seu próprio suprimento. Em outras palavras, os processos que economistas separam para propósitos de análise, Mauss trata como um sistema unitário interativo. "São 'todos', sistemas sociais inteiros cujo funcionamento tentamos descrever. Nós estamos preocupados com 'inteiros', com sistemas na sua totalidade. [...] pesquisa dos fenômenos sociais 'totais'." (Mauss, 1969, p. 77-78).1

Evans-Pritchard (1969, p. vii), em sua introdução à primeira tradução para o inglês, afirmou:

"Total" é a palavra-chave do Ensaio. As trocas de sociedades arcaicas que ele examina são movimentos ou atividades sociais totais. Elas são ao mesmo tempo fenômenos econômicos, jurídicos, morais, estéticos, religiosos, mitológicos e sócio-morfológicos.

Mauss mostra como as grandes correntes de dádiva ligam todos na comunidade num ciclo de trocas de longo prazo. As dádivas mantêm um padrão particular de relações sociais e o padrão de relações gera os padrões de trabalho que produzem os materiais para as dádivas. Em economias não-monetárias a quantificação era difícil, outro motivo para a idéia ser estranha à prática da ciência econômica.

Sob qualquer ângulo, tanto se o foco é na demanda, criando o suprimento, quanto no suprimento, criando sua própria demanda, o rabo da cobra está firmemente dentro da boca da cobra, como Piero Sraffa (1972) afirma. Talvez esta seja uma coisa curiosa a se querer fazer, mas se o circuito da economia foi artificialmente quebrado a favor de se calcular o suprimento e a demanda, é bom juntá-las novamente em algum momento. Naqueles dias, quem fazia trabalho de campo em antropologia sempre buscava relacionar o padrão total de demanda aos padrões de produção dentro de um esquema sociológico. Eu considero isso ainda o ideal para a antropologia econômica. Mas nós tínhamos, em primeiro lugar, que tratar dos problemas conforme eles surgiam, e no final os antropólogos foram vencidos naquele objetivo pelos economistas.

Os primeiros passos foram Economics of the New Zealand Maori (1959), de Raymond Firth, seguindo por A Primitive Polynesian Economy (1939), que demonstraram que a análise econômica formal poderia ser aplicada a uma economia não-monetarizada.

Isso foi importante e necessário. Audrey Richards, em Land Labour and Diet in Northern Rhodesia (1939), analisou os efeitos, numa sociedade de vilas, da migração do trabalho para o cinturão do cobre, os efeitos nos padrões de casamento e um foco nas dificuldades das mulheres vivendo em vilas semidesertas. Evans-Pritchard, em Os Nuer (1940), foi quem chegou mais perto de realizar o programa de Mauss ao mostrar como trocas de gado e trocas de mulheres formavam um só sistema recíproco. Moses Finley (1973) fez uma análise da troca de dádivas dos laços entre chefes e súditos na Grécia antiga.

Esses foram nossos professores. Essa foi a base da minha própria pesquisa de campo no (então) Congo Belga. Eu estava especialmente interessada em transações intergeracionais (Douglas, 1963). As novas fileiras de pesquisadores de campo africanos reportaram os tristes efeitos da monetarização e a condição dos migrantes trabalhadores.2 Através da influência de Franz Steiner, os escritos de Bohannon (1955) sobre a economia Tiv foram bem sucedidos em mostrar a circulação de mulheres, escravos e preciosidades num esquema bem coerente com produção doméstica, casamento e hierarquia militar. Quase na mesma época um modelo de comunicação da circulação de mulheres e bens foi a espinha dorsal da teoria elementar do parentesco, de Lévi-Strauss (1949). Entretanto, Lévi-Strauss negligenciou o lado econômico da equação – e não foi o único antropólogo a fazer tal coisa – e por várias outras razões a visão totalizante de Mauss foi logo perdida.

Uma razão para o declínio na antropologia econômica era seu pensamento evolucionário implícito. A dádiva veio primeiro, cedo, e era elementar, primitiva; o dinheiro veio depois, com a civilização, mas do ponto de vista anterior o dinheiro significava ruína, ele dissolveu os laços primordiais de parentes e vizinhos e deteriorou a base moral da comunidade. A tese forneceu uma plataforma fácil para uma antropologia marxista da exploração colonial, que era necessária e prestes a chegar, mas inevitavelmente quebrou o paradigma estabelecido por Mauss e cortou a tentativa de tornar aplicáveis as categorias econômicas. O debate que se seguiu entre os antropólogos dividiu-se a serviço de diferentes pautas.

A primeira grande mudança foi uma forte controvérsia em relação a se a análise econômica era, de alguma forma, possível de ser usada em economias não-monetárias. Raymond Firth liderava os chamados "formalistas", que acreditavam que o caminho para o maior entendimento era através da aplicação e desenvolvimento dos conceitos formais da ciência econômica. Dalton (ver, por exemplo, Economic Anthropology and Development, 1971) liderava os chamados "substantivistas", que acreditavam que a maior parte da substância da vida econômica estava caindo pelas rachaduras da teoria econômica formal. Eu mesma concordava com tal crítica, mas estava otimista em relação a enfrentá-la, estendendo o conceito de ciência econômica. Os formalistas lutavam na retaguarda em favor da disciplina intelectual e os substantivistas favoreciam a descrição sem disciplina. Enquanto isso, no centro de todo calor e fúria, a antropologia econômica ainda permanecia não-sistematizada e, embora a disputa fosse violenta, ela foi se tornando bastante escolástica e remota. Assim, muitos trabalhos excelentes sobre comportamento econômico estavam sendo publicados por antropólogos, suplicando por uma síntese. Mas os jovens economistas de hoje não estão cientes das coisas boas que foram feitas e estão ocupados reinventando a roda.

E assim aconteceu que, por uma divisão implícita de trabalho, os economistas estudavam economias de mercado e os antropólogos estudavam economias de dádiva. Embora ambos aceitassem que a linha poderia não ser claramente traçada, eles não esperavam mais ter que falar uns com os outros. Esse era o pano de fundo frustrante de O Mundo dos Bens. Mas a principal razão para a estagnação da antropologia econômica foi que construir uma ponte entre a ciência econômica e a cultura era uma tarefa muito mais difícil do que parecia num primeiro momento.

A idéia de pessoa

Eu tinha a ilusão de que se nós estudássemos macroeconomia estaríamos nos aproximando do modelo totalizante de sociedade de Mauss. Assim, tirei um ano para estudar a teoria de consumo, que parecia ser relevante para a doação de dádivas e que naquele momento era uma preocupação teórica importante. No início, eu desconfiava que a falta de diálogo era nosso erro enquanto antropólogos: talvez nós tivéssemos uma idéia muito reduzida do que a ciência econômica podia fazer. A teoria da dádiva não poderia ser aplicada à economia moderna sem, antes, mudar uma noção fundamental. A idéia corrente era de que a "demanda do consumidor" é uma demanda por bens a serem consumidos pelo comprador. Simbolizado pela cestinha de compras, o consumidor deveria estar escolhendo coisas, objetos, para seu uso privado ou familiar. Na verdade, o oposto é verdade. O consumidor é inerentemente um animal social, o consumidor não quer objetos para ele mesmo, mas para dividir, dar, e não só dentro da família.

O maquinário da teorização e medição econômica foi criado para a idéia de que o consumo é uma atividade de indivíduos. A teoria está presa nessa noção. Nos anos seguintes, continuei procurando maneiras de afirmar isso (Douglas, 1996). Eu ainda continuo tentando atacar a idéia enganosa de pessoa humana (Douglas; Ney, 1998). Recentemente, para um estudo sobre clima global, tive que pesquisar a atual filosofia do bem-estar, as teorias de necessidades básicas, necessidades humanas, qualidade de vida, e os resultados de pesquisas baseadas nelas (Rayner; Malone, 1998). Todas essas teorias assumem uma teoria de necessidades, começando pelas físicas; primeiro a necessidade de viver, de ter comida e água, abrigo, etc., e então a necessidade de companhia e satisfação social e espiritual. O pensamento é tão fracamente teorizado na sua própria área que tem que iniciar com biologia. É absurdo. A teoria deveria começar com seres inteligentes que tem o suficiente para viver e mesmo assim conseguem matar de fome alguns de seus iguais. Pobreza é uma questão de como as pessoas tratam umas às outras, e isso precisa de um enquadramento sociológico. Parece haver um tipo de incapacidade profissional. Muito é dito sobre comunicação, mas sempre sobre indivíduos comunicando: uma inabilidade de contemplar a cultura como um processo dinâmico feito por indivíduos interagindo. Uma psicologia que concebe de forma totalmente errada a natureza da pessoa é parte do fardo com o qual a teoria do consumo tem tido que lidar.

Minha idéia central é de que a ciência econômica deveria levar em consideração a função comunicativa dos bens como básica (Douglas, 1987). Isso necessitaria de algumas afirmações fortes. Ou se esquece a biologia, ou ela é usada de forma inteligente. Se uma pessoa nasce como um ser comunicativo, e nasce dependente dos outros, nós certamente devemos assumir que algum poder comunicativo inerente é parte do equipamento nativo. Eu aplaudo o departamento psiquiátrico da Universidade de Edinburgo, Colwyn Trevarthen, e colegas escandinavos, que adotam noções biológicas evolucionárias: a criança nasce dependente de outros humanos; ela tem a vontade de controlar o seu ambiente, e assim é fortemente interessada em controlar os humanos à sua volta. Ela é dotada da experiência de seu próprio corpo e, assim, da sua experiência de lateralidade ela entende transações de dois lados, como bater palmas, e de sua posição de pé numa dimensão vertical ela entende balanço e simetria. Assim, há um interesse primordial na reciprocidade. Nessa abordagem teórica, as necessidades sociais vêm ao mesmo tempo ou antes do conforto físico, porque elas são as maneiras de conseguir comida, etc. É impressionante ainda no dia e época de hoje ler psicologia do desenvolvimento que ensina que as habilidades sociais vêm posteriormente no desenvolvimento infantil. Ao invés de uma tabela de necessidades básicas que começa com as físicas e termina com as sociais e simbólicas, o oposto funcionaria melhor.

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