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quinta-feira, 28 de março de 2013

LÁ DO LESTE - Uma etnografia Audiovisual Compartilhada


Livro, filme, artigo, fotografia, debate e participação heterogênea compõem essa etnografia original e de múltiplos desdobramentos. Aconteceu ontem o lançamento do livro "LÁ DO LESTE - Uma etnografia Audiovisual Compartilhada" fruto de um projeto etnográfico ousado e que torna possível o diálogo entre poder público, ONGs, comunidades e universidade.
Vale a pena conferir os conteúdos do projeto que as autoras Carolina Caffé e Rose Satiko compartilham através de um site interativo e autêntico, onde é possível assistir aos filmes, ler o livro, acompanhar os debates e acessar as produções extras!


Boas navegações!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O Consumo de Tecnologias Domésticas (e domesticadas!)




Consuming Technologies: Media and Information in Domestic Spaces (1992)
Eric Hirsch (Editor), Roger Silverstone (Editor)

Entre as leituras deste mês, dei uma olhada nesta coletânea de artigos que conta com etnografias sobre o consumo de tecnologias em espaços domésticos (celulares, aparelhos de televisão, computadores etc.). A Abertura do livro "Forewords: The Mirror of Technology" foi escrita por Marilyn Strathern e traz algumas reflexões interessantes sobre o consumo de tecnologias, além de um panorama crítico sobre os artigos que compõe o volume.

The local "culture" turns these global itens into manifestation of the "local" culture!
Começa a autora. A experiência individual, neste caso, parece funcionar como um tipo similar de conversão. cada pessoa individual é, nesse sentido, a cultura de um só. Assim, a casa contextualiza o "comportamento" das tecnologias enquanto objetos que também habitam os lares, ocupam seu próprio espaço dentro de um espaço doméstico, torna-se parte da dinâmica da vida cotidiana e das relações familiares.
Essas tecnologias podem se tornar fundamentais para a dinâmica dos relacionamentos familiares, mas não são elas mesmas a razão destes relacionamentos, já que estes objetos lidam com aquilo que já está lá, com o que já deu forma à vida das pessoas. Eles são "domesticados" para finalidades tanto culturais, quanto sociais.

Um dos temas recorrentes do livro é que as tecnologias são descritas como aquelas que recebem significados sociais. Assim, longe de aumentar o isolamento das pessoas umas com as outras, as tecnologias da comunicação podem reforçar a sociabilidade. Elas não apenas se encaixam nas condutas das relações sociais, mas parecem dar às pessoas a sensação de que existe mais interação (sociabilidade) do que, de fato, há. Juntos, os artigos deste volume questionam o determinismo de que as pessoas sejam passivos recipientes de produtos. Os autores mostram como esses itens são domesticados na sociabilidade da família e moldados pelas complexidades das interações familiares.

Você pode dar uma olhada na lista dos artigos que compõe o volume aqui no GOOGLE BOOKS

Boa leitura!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Antropologia dos Modernos: novo livro de Bruno Latour

Acaba de sair do forno o novo livro de Bruno Latour (Setembro de 2012) "Enquête sur les modes d’existence. Une anthropologie des Modernes" 

Em seu novo livro, um inquérito sobre os modos de existência da antropologia moderna, Bruno Latour reúne e faz argumentos coerentes anteriormente dispersos em vários de seus livros, artigos e estudos de campo. Resultado de uma pesquisa de 25 anos, tem uma formulação positiva de uma pergunta negativa em sua publicação "Jamais fomos modernos" (Nous n’avons jamais été modernes). Se "nós" nunca fomos modernos, o que "nós" fomos? Que valores herdamos? Para responder esta pergunta, Latour tem desenvolvido um protocolo de pesquisa que é muito diferente da teoria do ator-rede (ANT) na qual seu nome é agora associado. A questão já não é mais definida apenas pelas "associações" e pela ação de seguir as redes com o objetivo de redefinir conceitos como de "sociedade" e "social", mas seguem diferentes tipos de conectores que dão a estas redes o seu tom específico. 


Estes modos de extensão, ou modos de existência, nos permitem perceber muitas diferenças entre o direito, a ciência, a política, etc. Esta tentativa sistemática de construir uma nova antropologia filosófica oferece uma perspectiva radicalmente diferente sobre o que era o "moderno" e, portanto, uma base capaz de tornar possível uma antropologia comparativa com outros grupos, num momento em que todos devemos enfrentar a crise ecológica. O livro resume as conquistas deste programa de pesquisa.  




quarta-feira, 26 de setembro de 2012

25 anos de Writing Culture

Writing Culture comemora 25 anos. Sem bolo, nem vela, nosso presente é uma edição especial da Cultural Anthropology com artigos interessantes e pertinentes para o atual momento de nossa disciplina. Ultimamente tenho lido muitos artigos que discutem a "crise da representação" e em particular a importância - mas também a severa crítica - acerca da reviravolta que ocorreu na antropologia a partir da publicação de Writing Culture


Na Introdução, escrita pelo Editor Orin Starn, lemos:
"Nós apresentamos esta edição especial na Cultural Anthropology para marcar o 25º aniversário da publicação de Writing Culture. Pra começar, pedimos a James Clifford e George Marcus que dessem sua opinião sobre a ocasião. Clifford, sempre um historiador brilhante, (e, às vezes, esquecemos que ele é um historiador e não um antropólogo por formação), nos leva de volta no tempo. Por sua vez, George Marcus, astuto e por vezes de tendência visionária lança um olhar para a frente. Clifford escreve aqui num registo mais incerto, pessoal, e, por vezes, melancólico em contraste com o mais confiante pedaço de Marcus. Os dois editores de Writing Culture trouxeram sensibilidades muito diferentes, porém complementares ao projeto. Seus próprios ângulos distintos de abordagem permanecem em exposição nos dois ensaios 25 anos depois.

Nessa edição especial, também foram convidados outros seis antropólogos para contribuir neste aniversário de Writing Culture. Cada colaborador tem o livro como ponto de partida para sondar questões de interesse em seus próprios pensamentos sobre antropologia e sobre o mundo. Os artigos, em conjunto, sugerem que a antropologia continua a lutar dentro e contra muitos dos mesmos desejos, tensões e possibilidades que o Writing Culture havia aberto para exame um quarto de século atrás, embora de maneiras, muitas vezes, inesperadas."


1984 SAR Writing Culture Seminar

Faça download dos artigos aqui e ótima leitura!

**TABLE OF CONTENTS**

Writing Culture at 25: Special Editor's Introduction
ORIN STARN
Cultural Anthropology August 2012, Vol. 27, No. 3: 411-416.

Free Article Access
Feeling Historical
JAMES CLIFFORD
Cultural Anthropology August 2012, Vol. 27, No. 3: 417-426.

Free Article Access and Supplemental Material
The Legacies of Writing Culture and the Near Future of the Ethnographic Form: A Sketch
GEORGE MARCUS
Cultural Anthropology August 2012, Vol. 27, No. 3: 427-445.

Free Article Access and Supplemental Material
Ethnography in Late Industrialism
KIM FORTUN
Cultural Anthropology August 2012, Vol. 27, No. 3: 446-464.

Free Article Access and Supplemental Material
Kinky Empiricism
DANILYN RUTHERFORD
Cultural Anthropology August 2012, Vol. 27, No. 3: 465-479.

Free Article Access and Supplemental Material
Ethnography Is, Ethnography Ain't
JOHN L. JACKSON JR.
Cultural Anthropology August 2012, Vol. 27, No. 3: 480-497.

Free Article Access and Supplemental Material
Excelente Zona Social
MICHAEL T. TAUSSIG
Cultural Anthropology August 2012, Vol. 27, No. 3: 498-517.

Free Article Access and Supplemental Material
Precarity's Forms
KATHLEEN STEWART
Cultural Anthropology August 2012, Vol. 27, No. 3: 518-525.

Free Article Access and Supplemental Material
Twenty-Five Years Is a Long Time
HUGH RAFFLES
Cultural Anthropology August 2012, Vol. 27, No. 3: 526-534.

Free Article Access and Supplemental Material
Anthropology and Fiction: An Interview with Amitav Ghosh
DAMIEN STANKIEWICZ
Cultural Anthropology August 2012, Vol. 27, No. 3: 535-541.

Free Article Access and Supplemental Material
Playlists: Books to Teach With
Cultural Anthropology August 2012, Vol. 27, No. 3: 542-546.

Free Article Access

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Entrevista com Bruno Latour

Mais uma vez no Brasil, Latour dá entrevista para o Valor Econômico:

Valor: O senhor acredita que o Brasil ocupa um lugar especial no cenário mundial neste momento em que a Europa vive uma crise?
Bruno Latour: O Brasil faz parte de minha vida desde a minha infância, pois tive três irmãs que moraram no país, por razões diferentes. Acredito que a questão ecológica do século XXI vai ser decidida aqui. Há coisas que podem ser melhoradas na Europa, do ponto de vista ambiental, mas o verdadeiro cenário desse jogo será o Brasil, porque já é muito tarde para a Ásia e a África. A questão é saber se os intelectuais e os políticos brasileiros poderão ir além dos fundamentos da modernidade. Mas a grande questão ecológica se desenrolará aqui.
Valor: Sua teoria ator-rede se refere a seres humanos e não-humanos. É uma crítica ao humanismo? O que o legado humanista nos proporcionou de tão criticável?
Latour: O humanismo é uma forma limitada de pensar o grupo dos humanos, que vejo como dependentes de muitos outros seres que não são humanos. Uma definição que isole o humano dos seres que o fabricam - tanto as divindades religiosas quanto as coisas com as quais os humanos vivem, como as árvores, mas também o alumínio para fazer estes talheres - é uma visão estreia. A perspectiva humanista foi legítima em uma determinada época, se falarmos do humanismo da metade do século XIX até a metade do século XX, antes que os ecologistas tenham chamado nossa atenção para o problema ambiental. Mas hoje não há mais nenhum sentido falar em humanismo. Este tipo de humanismo não tem os elementos necessários para absorver as grandes questões políticas atuais. Não se pode, por exemplo, fazer uma teoria consciente do problema do clima com o pensamento moral de Kant. Precisamos pensar na composição na qual seres humanos e não-humanos se relacionam. O humanismo é uma versão ultrapassada dos problemas políticos que nos dizem respeito. Hoje, trata-se de ser inteiramente humanista, ou seja, incluir todos os seres que são necessários para a existência humana.
Valor: Um dos postulados da teoria ator-rede é que, quando uma pessoa age, mais alguém está agindo junto. O senhor poderia explicar como isso funciona?
Latour: Os humanos são envolvidos por muitos outros seres, e a ideia de que uma pessoa age autonomamente, com seus próprios objetivos, não funciona nem na economia, nem na religião, nem na psicologia nem em nenhuma outra situação. Portanto, a pergunta que a teoria ator-rede coloca é: quais são os outros seres ativos no momento em que alguém age? A antropologia e a sociologia que tento desenvolver se ocupa da pesquisa desses seres. Eu posso colocar a questão de um modo inverso: como, apesar das evidências de todos os numerosos seres que participam de uma ação, continua-se a pensar como se o único ator fosse o humano dotado de uma psicologia, ciente de si mesmo, calculador, autônomo, responsável? A antropologia no Brasil é particularmente capaz de entender que não há esse "eu", esse sujeito individual e autônomo que age no mundo, o que é uma visão muito estreita. Tenho muito contato com outros antropólogos brasileiros, como o Eduardo Viveiros de Castro (UFRJ).
Valor: O senhor veio ao Brasil para participar de um simpósio sobre novas tecnologias de comunicação. Qual é a grande afinidade entre a sua teoria ator-rede e as teorias da comunicação?
Latour: Elas são próximas porque a teoria ator-rede é essencialmente uma teoria da multiplicidade de mediações, e esses pesquisadores estão interessados em discutir o domínio da mídia e das mediações. Aqueles que se interessam por mediação - de modo positivo, e não negativamente - encontram conceitos e métodos para trabalhar com a teoria ator-rede.
Valor: Por que os jornalistas estão sempre mencionados entre os integrantes importantes da teoria ator-rede?
Latour: A formatação de informações desempenha um papel muito importante no espaço público, no qual se situa o espaço político. Não conheço muitos estudos sobre jornalismo que sejam feitos a partir da teoria ator-rede, porque essas pesquisas geralmente são feitas do ponto de vista crítico, e a teoria ator-rede não é uma crítica. Muito frequentemente, os jornalistas são simplesmente acusados de deturpar um ideal de verdade que, se não houvesse a mediação, chegaria ao público a partir de uma transmissão transparente e direta. Cientistas, políticos e economistas gostam de dizer que, se não houvesse os jornalistas, a informação seria mais transparente, mais direta, menos comprometida.
Valor: A teoria ator-rede se transformou em muitas outras coisas - cada um dos pesquisadores do grupo original seguiu por um lado, e houve uma diáspora. O senhor ainda se reconhece como um teórico da ator-rede?
Latour: O grupo original nunca foi muito unido, mas se reuniu em um momento em que a sociologia percebeu que havia negligenciado a técnica, a ciência, e os seres não-humanos. Foi uma tomada de consciência das ciências sociais de que o século XX nos legou uma série de questões - como a da dominação e a da exploração -, mas sempre com uma visão sociocentrada. A teoria ator-rede vem a ser a evidência de que é preciso se interessar pela vida secreta dos objetos.
Valor: Refaço ao senhor uma pergunta que está no livro "A Esperança de Pandora" (Edusc): de onde provém a oposição entre o campo da razão e o campo da força?
Latour: Fiz uma genealogia dessa oposição, que remonta à falsa disputa entre os sofistas e os filósofos e organizou o debate nos países ocidentais. Pretendi suspender essa separação e colocar a questão sobre qual é a força dos dispositivos racionais. Foi assim que comecei minha antropologia da ciência. E há uma segunda pergunta: quais são as razões da relação de força política, religiosa, econômica? A distinção entre força e razão faz parte de um conjunto de antigas dicotomias que não são mais capazes de nos orientar quando falamos da questão científica. Nessa dicotomia, supõe-se que a razão vai unificar a discussão. Mas, se a razão já teve esse poder, atualmente não tem mais, e precisamos encontrar outras ferramentas intelectuais para nos orientar nessa disputa. É o que eu chamo de cartografia da controvérsia. Essa é hoje uma grande questão para a democracia.
Valor: Afirmar que a ciência é social é uma forma de relativizar os resultados científicos?
Latour: Esse é um mal-entendido sobre o significado da palavra social. Evidentemente, dizer que os fatos são sociais não equivale a dizer que esse garfo é uma fabricação social - isso não faria sentido. Eu digo que esse garfo é resultado de um processo industrial que inclui uma legislação, empresas, indústrias - o que é totalmente diferente. A ciência faz parte de um coletivo - estou propositalmente evitando usar a palavra social - do mundo. Há quem acredite que a ciência, particularmente as ciências naturais, é absoluta. Mas esses são os religiosos da ciência, não os participantes da ciência. Não conheço um ator participante da ciência que não seja um relativista ou, melhor dizendo, um relacionista, porque ele sabe que conhecer é estabelecer relações dentro de um quadro de referências. A crítica aos relativistas, feita pelos absolutistas, é frequente, mas essa não é uma discussão produtiva. A discussão que me interessa é: como estabelecer as relações entre os quadros de referência, as culturas, os modos de existência, as formas de vida? Não conheço quem que, desse ponto de vista, critique o relativismo.
Valor: Pode-se resumir seu livro "Jamais Fomos Modernos" como uma crítica à modernidade. O senhor mantém as mesmas críticas em relação aos pós-modernos?
Latour: Sim. Os pós-modernos tiveram a sensibilidade de perceber que havia qualquer coisa de complicada na modernidade, mas é o mesmo movimento. Simplesmente há um retorno a alguns dos problemas que a modernidade não havia tratado, mas não há um retorno às raízes da modernidade.

Carla Rodrigues, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), é doutora em filosofia e pesquisadora do CNPq